Artesãos aplicam conceitos matemáticos sem os saber

Os artesãos aplicam, mesmo sem o saber, conceitos matemáticos na construção dos pipos de vinho ou das almotolias para o azeite - é a designada Etnomatemática que foi investigada por três docentes da Universidade de Vila Real.
A experiência de cinco latoeiros e três tanoeiros da Região do Douro foi alvo de dois trabalhos de investigação, no âmbito da Etnomatemática, realizados por três docentes do Departamento de Matemática da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).
Cecília Costa, Paula Catarino e Maria Manuel Nascimento investigaram cinco latoeiros e três tanoeiros de Trás-os-Montes e Alto Douro para descobrirem qual a matemática que é praticada na profissão artesanal e se esta reflecte sobre o lugar dessa mesma matemática na educação.
"A Etnomatemática é a matemática da terra. A matemática das artes e ofícios de transmontanos", explicou à Agência Lusa Cecília Costa, docente do departamento de Matemática da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).
Foi Ubiratan D´Ambrósio que concebeu o termo Etnomatemática, sendo para ele a "matemática de grupos culturais, identificáveis, podendo estes grupos basear-se na etnia, na ocupação profissional ou na faixa etária".
As docentes registaram os depoimentos e entrevistas dos artesãos, enquadrando os seus saberes, os processos matemáticos da tradição e saberes ancestrais na competência matemática do ensino formal, e quiseram ainda estimular a comunidade educativa para agir como impulsionadora na sua valorização.
Segundo Cecília Costa, o trabalho de investigação teve como objectivo "promover a aplicação de novas metodológicas e realizar actividades experimentais no que diz respeito à matemática".
"Queríamos também desenvolver do gosto pela matemática e a criação de uma identidade cultural e científica para os jovens da região de Trás-os-Montes e Alto Douro", acrescentou.
As investigadoras entrevistaram os latoeiros Abel Gradiz (de Armamar), Joaquim Santos, (Vila Real), Júlio Ferreira (Vila Real), Manuel Cristino (Sanfins do Douro) e Rui Santos (Vila Real), e os tanoeiros António Mesquita (Vila Real), Diamantino Gouveia (Mesão Frio) e Manuel Sobrinho (Sanfins do Douro).
Os artesãos têm idades compreendidas entre os 35 e 78 anos.
"Os artesãos utilizam conceitos matemáticos, alguns deles bastante evoluídos, sem que se apercebam ou que saibam fazer a equação matemática", referiu Cecília Costa.
Acrescentou que a sua percepção da utilização da matemática depende do seu grau de escolaridade.
Segundo a responsável, artesãos que frequentaram o ensino secundário têm noção que usam algumas conceitos matemática e que ela lhes estava a ajudar, mas em geral, as pessoas sem formação escolar aprenderam o ofício através de familiares ou do mestre.
"É mais um repetir do que lhes havia sido ensinado. Mas o certo é que usam a matemática e sabem matemática", frisou.
Para fazer um pipo, Diamantino Gouveia diz que o mais difícil é "trabalhar o redondo", o que aprendeu a fazer com o seu pai.
Por exemplo, para fazer a tampa ou cabeça da vasilha, o tanoeiro diz que acha o raio da tampa medindo "seis compassos" o que lhe dá o "raio certinho para encaixar na ranhura".
"O que o senhor Diamantino faz é marcar os pontos de um hexágono regular inscrito na circunferência, cujos lados têm o comprimento do raio da circunferência da tampa para o pipo em construção", explicam as investigadoras.
Os latoeiros, que produzem artefactos em zinco, alumínio ou cobre, utilizam como principais ferramentas o compasso de pontas secas e a régua não graduada, que são, de acordo com Cecília Costa, semelhantes ao material de desenho usado na geometria euclidiana desde a antiguidade clássica.
O latoeiro Rui Santos, 35 anos e o mais novo artesão entrevistado no decorrer desta investigação, referiu que na disciplina de matemática aprendeu alguns conteúdos que considera serem "muito úteis" na sua profissão, nomeadamente o uso do número "pi".
"Para fazer os tubos eu sei que é vezes 3,14, então talho na chapa o tamanho, enrolo e dá-me o diâmetro que quero. Se eu quero 14 centímetros de diâmetro faço 14 vezes 3,14 e sei que me vai dar o tamanho da chapa que eu vou gastar para enrolar", explicou o artesão.
As investigadoras aproveitaram os exemplos concretos do trabalho dos artesãos para levar para dentro da sala de aula. O projecto foi posto em prática com alunos de cinco escolas da região, nomeadamente de três de Vila Real, Valpaços, Sabrosa.
Desde o quinto ao nono ano, as docentes implementaram actividades, que levaram os alunos a fazer a sua própria almotolia ou a trabalhar com receitas da região, como do folar de Valpaços, estudar os brasões de Provesende ou fazer a análise de terrenos e cultura da vinha
O trabalho de investigação das docentes foi publicado na obra "Etnomatemática - Um Olhar sobre a Diversidade Cultural e a Aprendizagem Matemática", coordenada por Pedro Palhares, da Universidade do Minho, e publicada pelas Edições Húmus com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.
Com prefácio de Bill Barton, professor da University of Auckland, Nova Zelândia, esta obra procura, com os vários trabalhos que divulga, fazer o exame de práticas matemáticas de comunidades particulares, consciencializando-nos dos conceitos, ideias e processos que suportam, os quais "não devem ser encarados como triviais ou simples".

Fonte. DA
24/08/2008